Extraído do livro: "50 anos do ITA"----------------------------------Disciplina ConscienteNo que se refere ao primeiro ponto ? preparação acadêmica ? já ficou dito o que pareceu conveniente registrar e em dois itens se resume : freqüência obrigatória e alto aproveitamento nos estudos, sob a pena extrema de desligamento do corpo discente. No que se refere ao segundo ponto, o esforço inicial esteve em mostrar que toda comunidade reclama uma ordem. E a comunidade universitária começante pretendia instituir ordem que prescindisse de qualquer forma de vigilância e, apoiada na confiança, viesse a centrar-se nos próprios alunos. Trabalho em tal sentido teve à sua frente a figura criadora do prof. Joseph Morgan Stokes, primeiro Chefe da Divisão de Alunos, sendo justo reconhecer o trabalho de professores/conselheiros por ele orientados e a facilidade então trazida pelo convívio estreito entre docentes e discentes, ainda pouco numerosos. Como resultado, instituiu-se no ITA um regime, cuja denominação e conteúdo foram sempre controvertidos e imprecisos, mas que, não obstante, revelou eficácia. O regime chamou-se de disciplina consciente e se, em torno dele, muito se discutiu, pouco se teorizou. Parece, por isso mesmo, interessante, dada a especificidade do assunto, reproduzir algumas passagens de tese subscrita pelos então alunos Sérgio Magalhães Bordeaux Rego e Luís Oscar de Mello Becker, apresentada, na década de 60 a uma Assembléia Geral do Centro Acadêmico Santos Dumont ? CASD e por esta aprovada. Transcrevemos ainda que extensamente : "Sendo a finalidade deste trabalho a formulação teórica do regime existente no ITA, só nos interessam critérios conceituais objetivos.No entanto, para maior clareza dos conceitos de DC (disciplina consciente) sua missão será feita simultaneamente a uma comparação com as características da autodisciplina. a) A Autodisciplina ? a autodisciplina implica na aceitação por parte do indivíduo, do conjunto de normas existentes expressas pela própria sociedade ou a ela impostas. A ação individual se resume no exercício da vontade e um auto controle, com o objetivo de agir segundo os cânones da comunidade. b) A Disciplina Consciente ? A disciplina consciente corresponde a uma atitude crítica frente ao conjunto de normas existentes. Abrange a compreensão, crítica, aceitação ou tentativa de transformação das normas. As normas nunca serão infringidas; reconhecida sua inaceitabilidade ou impraticabilidade serão transformadas. Não consiste a disciplina consciente, no entanto, na aglomeração e coexistência dos critérios subjetivos de cada um. (...) Torna-se necessário ... uma matriz de conceitos que unifique os anseios e o pensamento dos membros da comunidade quanto à ordem e disciplina necessárias para sua existência e evolução. O Caráter consciente da disciplina reside no fato dessa matriz ser forjada pela própria comunidade, com a colaboração direta ou indireta da maior parte de seus membros. Estes lhe emprestam um caráter dinâmico ao debaterem seus termos, formando-os ou esclarecendo-os, tomando consciência de sua utilidade e sua moral ou lutando para reformulá-los e desenvolvê-los. Tiram-lhe,assim, qualquer aspecto de aceitação e prática passiva, características da autodisciplina (...) A disciplina consciente, a) estabelece um regime de trabalho entre alunos e professores ;b) estabelece condições para que o professor tenha uma idéia real do desenvolvimento da turma;c) dá alto grau de liberdade aos alunos;d) contribuiu para a formação de um ambiente de camaradagem e de confiança mútua entre os alunos ;e) desenvolve entre os alunos o senso de responsabilidade e probidade imprescindíveis à vida pública;f) elimina um aparato custoso de vigilância e menos eficiente " Disciplina consciente, como dito, não poderia significar autorização para a prática de todo e qualquer ato não reprovado pela consciência individual e nem irrestrita submissão a norma prévia de origem externa ao grupo e só externamente alterável.Haveria isto sim de significar a espontânea observância de normas de cuja elaboração a comunidade houvesse participado e reputasse conveniente para sua estabilidade e progresso, sem afastar a contribuição capaz de aperfeiçoamento. Lembrava-se Goethe : " só o grosseiro segue seu capricho; o nobre aspira à ordenação e à Lei". Sem embargo de linhas algo obscuras, era claro o objetivo da disciplina consciente : correção no trato das questões escolares e extra-escolares. Quanto às questões escolares, as regras aplicáveis se contiveram nos sucessivos regimentos vigentes, aos quais voluntariamente aderiam os candidatos ao Instituto. E as condições que emergiam dessas regras pretendiam ser favoráveis a uma absoluta lisura de comportamento. Os princípios de disciplina consciente deveriam, como é natural, alojar-se no largo e arejado espaço deixado pelas regras postas pelas sucessivas portarias regulamentadoras do Instituto - e com elas compatibilizar-se. E, sem embargo de linhas flexíveis ? porque seriam colocados à prova diante de situações imprevistas ? seria talvez o caso de dizer que, resumidamente, os princípios dde disciplina reclamavam, honestidade e correção. Correção dos alunos no trato entre si e com quaisquer outras pessoas, no Instituto ou fora dele; honestidade na execução de trabalhos escolares. Quanto a esse último ponto, o professor estaria sempre disposto a debruçar-se sobre a dúvida contra a qual o estudante houvesse intensa e inutilmente trabalhado, buscando levá-lo à solução esclarecedora.E assim perderiam sentido os procedimentos torpes ? simbolizados na "cola" ? que não deveriam manchar a escola nova. Em velho cancioneiro espanhol, aparece o lamento do homem valoroso e desassistido : "Que buen vassalo, si hubiera buen señor!" e o ITA quis exatamente propor à mocidade elevação de propósitos. Quis fazer-se capaz de convocar os melhores por saber que a obra vale o que valem os homens a ela dedicados